Há Muito Tempo no Blog da Cora Rónai...



Nos comentários do post abaixo, sobre o cotidiano com os gatos, o Paulo Roberto Lopes me fez esta pergunta:

"Você tem um apreço muito grande pelos gatos, dos quais também gosto, tenho um, mas acho que, de sua parte e de tantas outras pessoas, há exagero. Em vez de se ter tantos gatos, como você tem, por que não adotar uma criança sem-mãe-nem-pai? Não tenho nada com sua vida, e peço mil desculpas pela intromissão, mas eu o faço por motivo humanitário, porque me preocupa – muito mais do que os gatos -- as crianças que choram pelo carinho de alguém que possam chamar de mãe ou de pai – sobretudo de mãe. Em muitos casos, aliás, não se trata de escolher entre gatos ou criança, porque há condições financeiras e afetivas para se dedicar a um filhote humano, digamos assim, e ao mesmo tempo a um felino – pra que ter seis, dez gatos?"

Não precisa pedir desculpas, Paulo Roberto. Esta é uma pergunta clássica, feita por quem ou não tem animais ou não tem filhos; como você diz que tem um gato, suponho que não tenha filhos. É também uma pergunta muito difícil de responder, porque se a pessoa não percebe sozinha a diferença abissal entre um filho e um animal de estimação fica complicadíssimo explicar -- mas vou tentar.

Ninguém adota um fllho porque tem um dinheirinho -- ou um afetinho -- sobrando, temporariamente desviados para quadrúpedes. As pessoas adotam filhos quando sentem um vazio humano nas suas vidas. Ser pai ou mãe responsável não é só pagar a escola e o pediatra e fazer um carinho na cabeça da criança antes de ela ir dormir; é se atirar de corpo e alma na construção de uma pessoa, ensinar, dar e mostrar exemplos, cuidar, levar e buscar na escola, no balé e no inglês, estar atenta ao que faz e com quem se relaciona, dar disciplina e compreensão nas doses certas, enfim... viver 24 horas por dia em função daquela criança.

É preciso ter uma imensa disponibilidade de tempo, paciência e carinho para ser pai ou mãe de verdade; para não falar em dinheiro.

Como eu te disse, não dá para comparar crianças e bichos de estimação; mas, ficando só no lado prático da questão, ninguém precisa levar um gato à escola, conferir os seus deveres de casa ou, na adolescência, ir buscá-lo às quatro da manhã numa festinha do outro lado da cidade.

Inversamente, eu não poderia deixar uma criança sozinha durante todo o tempo que passo fora de casa, sobretudo quando viajo. Os gatos também não gostam muito dessas ausências, é verdade, mas aceitam a situação resignados.

Quanto à pergunta dentro da pergunta -- "pra que ter seis, dez gatos" -- posso garantir, pelo menos nos casos que conheço, que ninguém decide ter seis, dez ou quinze gatos. Os gatos acontecem na vida de quem gosta deles. Um dia a tua filha chega da faculdade trazendo um gatinho que estava sendo maltratado no bar da esquina (Mosca); no outro, o porteiro traz uma gatinha que foi abandonada em frente ao prédio, às portas da morte (Tutu); ou a faxineira vem com uma siamesinha que nasceu na favela e que ela não tem condições de criar (Pipoca); ou...

Enfim. Há milhões de crianças em condições desesperadoras, é verdade, mas a situação dos animais não é nada melhor, pelo contrário.

Eu criei dois filhos maravilhosos, que se tornaram adultos cheios de qualidades e que me enchem de orgulho; e dou guarida aos gatinhos que a vida teve a consideração -- a delicadeza -- de pôr no meu caminho.


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